sexta-feira, 21 de novembro de 2008

[TURMA I] PLANEJAMENTO INDIVIDUAL DE CRIAÇÃO

NUCELO FUNDAMENTADOR -AULA VIII
Celaine Refosco e Sandra Harabagi


LEMBRANÇAS

“Às vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar,
vale a pena ter nascido.”
Fernando Pessoa

“Sentir é criar. Sentir é pensar sem idéias,
e por isso sentir é compreender,
visto que o universo não tem idéias.”
Fernando Pessoa


E se fosse assim?

E se a vida fosse assim?

Quem seria esta pessoa?

Poderia ser assim ??? ... .

A mamãe fazia todas as minhas roupas, sempre com muitos laços.

O vestidinho de quando eu era criança ... pequenino ... a minha mão e da minha avó são iguais.

Quando eu fiz 10 anos minha avó me ensinou a trabalhar com overloque.

Minha família é alemã, sou do mato, minha frustração é não ter um cachorro, tenho pato, marreco, etc... tenho uma goiabeira.

Minha mãe casou com 12 anos e com 18 tinha 3 filhos.

Quando eu comecei a andar eu andava na ponta dos pés, todos achavam que eu tinha algum problema mas é que eu queria ser bailarina, desenhava muito e desenhava roupas.

Meu avô trabalhava com vidro, trouxe a história da sua vida através de objetos.

Quando eu fiz 10 anos minha avó me ensinou a trabalhar com overloque.

A minha ligação é com o passado, sempre tive uma ligação com a natureza....a minha mãe tinha um lindo jardim de flores, e as suas amigas diziam que ela tinha ‘mãos verdes’.
Meu avô colecionava selos, nós colocávamos os selos na água para tirar cola e fazíamos isto ouvindo música clássica, depois da missa.


Eu me sinto um palimpsesto, meio metamorfose ambulante... .

Fiz um curso de desenho de insetos.

Uma cesta de piquenique.

Uma colcha de retalhos feita pela minha avó materna.

Uma coleção de figurinhas.

Um pequeno vaso de vidro cilíndrico com imagens coladas... só com fotos sorrindo, mesmo que se quebre, a imagem manterá os cacos.

Uma tatuagem nas costas porque tenho muitas pintas, ‘connect the dots’ ... .

Meu avô era sapateiro.

Meu outro avô tinha fábrica de guarda-chuva, e eu separava os retalhos para montar pequenos guarda-chuvas.

Eu fazia roupas de bonecas, da minha mãe vieram os trabalhos manuais.

Minha mãe desenhou o seu vestido de noiva... .

Uma plantação de arroz... minha avó foi ginasta, meu pai é arquiteto, minha mãe também trabalha com arte, a minha irmã é fotógrafa.

Vi muitas fotos antigas, meu pai de soldado, mistura de portugueses, índios, alemães. A minha bisavó quando veio da Alemanha trabalhava como costureira, minha mãe tinha escola de balé e fazia os figurinos.

Meu avô foi desbravador, a procura do ouro... .

Meu avô era tropeiro e domador de cavalos... .

Meu pai foi desenhista técnico e quando eu tinha uns 13 anos eu idolatrava o parquímetro, lapiseiras e os materiais.

A foto de uma porcelana lá de casa.

Minha mãe sempre foi costureira e eu ficava com ela, rabiscando os figurinos.

A minha vida está se transformando, não estou mais no meu ninho, estou num processo de mudança.

Trabalhei com teatro, filosofia, arquitetura, educação, estilo ... O meu trabalho atual quem me fez compreender foi o Flávio Império... as sobras dos tecidos da industria ... os restos de estamparia... .

Eu sou muito desorganizada a minha maior mania é guardar tudo e um papel de bala vira história, tudo fica meio inacabado.

Eu acho que eu sou um vir a ser... .

Poderia ser assim ??? ... .

Sandra Harabagi. Primavera de 2008

*Sandra Harabagi, Mestre em Comunicação e Artes pela Universidade Mackenzie. Em 1991 criou a disciplina 'Laboratório de Criação' para os Cursos Superiores de Moda no Brasil. Iniciou sua pesquisa em Moda quando ministrava a disciplina 'Desenho de Observação', no curso de ‘Bacharelado em Desenho’, na Faculdade Santa Marcelina, em 1985. A partir de 1987 participou ativamente da formação do Curso de 'Bacharelado em Desenho de Moda'. Criou a disciplina ‘Laboratório de Criação’, para integrar a grade curricular do Curso de Bacharelado em Desenho de Moda da Faculdade Santa Marcelina; posteriormente aprovada pelo Ministério da Educação.Trabalha na Fundação Armando Alvares Penteado, FAAP, Em 2005 foi convidada para criar, planejar, montar e coordenar o curso de Pós-Graduação:- ‘Direção de Criação em Moda’ na FAAP; parceria com o ‘Instituto Brasil de Arte e Moda’. Consultora na área de Criação em Moda. Participa do Projeto Tex Brasil da ABIT, Associação Brasileira das Indústrias Têxteis e de Confecção.

*Celaine Refosco, artista plástica pela Belas Artes de Curitiba, mestre em educação pela Universidedade de La Habana e docente em cursos de arquitetura e moda. Egressa da especialização “Diseño para el Hogar” pelo CDI, Uruguay/Itália em 2003, implantou o curso de graduação em Moda da UNERJ em Jaraguá do Sul SC, que coordenou até 2006. Diretora de Criação em Moda pela Faap e pelo Instituto Brasil de Arte e Moda em associação Masp/Abit em 2006. Atua em moda e design com especial interesse por projetos que envolvem grupos com demandas sociais e baixas tecnologias com vistas ao desenvolvimento sócio cultural. É diretora geral da Orbitato – Instituto de Estudos em Arquitetura Moda e Design.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

[TURMA I] ONDE ESTAMOS - UMA REFLEXÃO

Nem todos os dados de um processo são controláveis

por Celaine Refosco

É claro! A gente cuida do que pode. Quando construímos a pós da Orbitato fomos prudentes em todos os aspectos que estavam ao nosso alcance. Buscamos a Unerj para os aspectos acadêmicos. Instalações econômicas que nos permitissem investir no mais importante: os melhores professores. Buscamos os melhores professores. E também, não bastavam os melhores professores do ponto de vista técnico, mas que fossem profissionais qualificados nas suas ‘humanidades’, por assim dizer.

E mais, estes professores deveriam formar um grupo com pensamento alinhado, mesmo não concordando em todos os aspectos abordados, mas coerentes em pontos fundamentais. (Nem todos se conhecem, mas sempre os imagino reunidos, numa grande mesa, e tenho certeza de que a festa iria até muito tarde, caso acontecesse).

Também pensamos em estruturas de apoio, em oficinas bem equipadas, em aspectos documentais, em atendimento personalizado, em respostas rápidas. Consideramos ambientes agradáveis, em luz natural sempre que possível, em lugar para sujar sem medo quando necessário.

Pensamos em flores no vaso, em lanches gostosos e saudáveis, em comunicação eficiente para os trabalhos realizados.

Enfim, previmos o que podíamos e é claro, que apesar de querer muito acertar sempre podemos falhar, mas o fazemos honestamente, admitindo erros sem tapar sol com peneira nenhuma, o que faz parte da filosofia.

Há, porém, um aspecto que não estava em nossas mãos, e acerca do qual nada podíamos fazer: os alunos. Não é possível eleger ‘bons alunos’ como é possível eleger ‘bons professores’. Há apenas que se trabalhar com quem vem, mesmo que este grupo de pessoas não chegue a virar um grupo ao longo do processo.

Diálogo é uma coisa que sempre depende do outro, não é possível dialogar sozinho. Logo, sem um grupo que entenda e responda que esteja disposto a crescer e a mudar, que seja permeável, que queira melhorar, não há diálogo possível. Estávamos nas mãos do acaso embora tivéssemos sido diligentes com a construção.

E o acaso nos favoreceu! Somos imensamente gratos ao acaso pelas pessoas que ele nos trouxe. E pelo fato de que em pouco tempo essas pessoas, viram um grupo!

E já somos diferentes! Já nos transformamos, criamos laços, parcerias, empatias, melhores amigos, bolos, flores, abraços, lágrimas e sorrisos simultâneos, e gargalhadas, claro! E melhor, não só entre alunos, mas alunos e professores, integrados, fortalecidos, transformados, em transformação.

Quando o grupo da pós, com Sandra Harabagi como professora, encontrou o Ronaldo Fraga na pizzaria, ao final da aula da última semana, a estrela brilhou. Era este justamente o sonho: que as aulas ‘vazassem’ da sala de aula para a vida, favorecendo o encontro. Quando a Luján Camariere escreveu no Caderno 12 no início do ano, que a Orbitato seria a “Bauhaus da América Latina” fiquei surpresa. Agora, acredito cada dia um pouco mais, grata ao acaso que nos trouxe este grupo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

[TURMA I] CULTURA NA ERA DA COMUNICAÇÃO

NUCLEO FUNDAMENTADOR - AULA VII

Subversão teórica!
Mais um texto desenvolvido para registrar a quem está, chegará, ou não pode participar do que anda rolando nos dias em que nos reunimos na tranqüila Pomerode, em lugares curiosos - sala de reuniões da prefeitura, auditório, sala multiuso, ou no local predileto: a pequena casinha enxaimel, localizada no parque de eventos da cidade, a sede do Orbitato.


Por vezes me encontro pensando o que às pessoas da cidade devem imaginar quando percebem, que a cada quinze dias um grupo de indivíduos se reúne ali, na pequena casinha, hora com as cortinas e portas fechadas, hora com tudo aberto e mesas no pátio com tintas ou cucas e sempre com flores.
O que possivelmente ninguém deve imaginar, é que naqueles momentos estão reunidos os melhores pensamentos, desejos e sonhos. Estão reunidas pessoas de áreas diversas da Moda, do Design, da Arquitetura, do Artesanato, da Publicidade, da História (e há quem tenha tudo isso misturado), buscando fazer da sua atividade profissional algo singular, e que principalmente, estamos sempre na companhia de professores incríveis (pessoalmente e profissionalmente) que tem os sentidos ultra apurados para literatura, arte, cinema, moda, design e principalmente para a vida, para a sociedade, para a cultura, para estética, e mais ainda, para ensinar.
No último encontro estivemos com Marin Feijó*! E que surpresa! Feijó nos trouxe sua experiência profissional, seu carinho, sua simpatia e dividiu conosco seus melhores saberes tratados a partir da disciplina CULTURA NA ERA DA COMUNICAÇÃO.

Na companhia de Feijó pudemos compreender os sentidos múltiplos da comunicação e sua projeção Cultural – intelectual, moral e estética - através dos conceitos históricos e da análise destes termos entre o moderno e o pós-moderno ultrapassando cidades, autores, tempos e espaços, e suas influências em quem ali esteve.
Eleger temas, conectar relações, proporcionar momentos de sonora reflexão, são as grandes habilidades de Feijó. Entendo que poucas vezes os feitos históricos fizeram tanto sentido, a todos, como os trazidos por ele.
Dentre tantos assuntos e revisões, destaca-se aqui, a visão do feminino, e sua projeção social através da história, da cultura e do mercado, atravesando os conceitos do erótico e do sensual, refletindo sobre s projeções intrínsecas deste pensamento na arte, pela mídia, e atualmente no cotidiano contemporâneo e do trabalho. Faz-se necessário pensar sobre a banalização da imagem, destacando a feminina, entendendo os contextos de toda esta transformação que nos afinam enquanto profissionais cientes de nossas atitudes perante os meios em que se transpõem as tais informações, de que tanto necessitam nossa busca e avaliação profissional.
É necessário também citar o entendimento sobre percepção, tanto a percepção estética ligada a sensibilidade dos sentidos, mas principalmente, aquela que está ligada a história: a percepção de entender a teoria já colocada, debatida e dialogada por quem antes de nós, olhou e pensou: cultura, comunicação, sociedade. Feijó nos uniu aos códigos históricos compostos de Baudelaire, Marx, Freud, a Jonh Lennon, da cultura à contracultura, as diversas formas de projeções, subjeções e mais, as SUBVERSÕES.


Encontramos nestes dias as condicionantes para seguirmos nossos dias profissionais, agora cientes das relações com a comunicação, analisando de maneira calorosa o que atravessa o tempo, e com o pensamento apurado para prever outras possibilidades.
Martin nos trouxe pontos importantes para entender e observar a “sociedade do espetáculo” e proporcionou o encontro com nosso espírito jovem, crítico, bastante apagado pelo processo histórico composto pela fusão de informações a que somos submetidos. Fez-nos compreender, principalmente, que a sensibilidade e o olhar apurado através da história permite o florecimento do entendimento contemporâneo. E que é necessário fazer, compor, recompor, subverter!
Aqui, nesta casinha, acompanhado destas pessoas, já somos contracultura, na contramão de tudo que acontece fora da esfera técnica, veloz e produtiva de nossas vidas, aqui estamos puramente ligados no aprender, pensar e criar! Pura contracultura nesta hora em que o mundo é um grande mercado, de que, infelizmente, nem a educação escapa.
Como diz Martin, no final de um de seus e-mails, após visualizar novos acontecimentos contemporâneos: “tudo começou com um "I have a dream", passou pelo dramático “the drean is over” e chegou ao "we can change"... We can change the world; seja em Washington, Pomerode ou em Mossoró”.