“O tato, reveste todo o corpo.”
“O toque ativa a memória do corpo.”
“Há universos particulares providos de inteligência corporal, que podem ser revelados pelo toque, do outro.”
“O artista tem que dirigir sua atenção.”
O Corpo entrou em debate nos seus aspectos mais profundos, desde a infância quando aprendemos erroneamente a fragmentá-lo – cabeça, tronco e membros – lembram? Até chegarmos a este corpo que vestimos ou que acoplamos aos objetos, este, que usamos como componente de nossa profissão. Karen conseguiu resgatar no grupo a relação profunda com o corpo que tem forma, volume, desenho, é tridimensional e funciona de maneira incrível com uma engenharia única e precisa.
Pode-se estabelecer relações com toda a estrutura que o compõe e vivenciar como seus eixos podem assumir diversas posições no espaço. Pode-se entender a carga que carregamos quando entendemos que há muito nosso corpo é preparado para o trabalho de forma mecânica. Através do estudo particular de como ele se movimenta e interpreta as sensações acabamos por comprovar que para muitos, a grande maioria, ele anda realmente esquecido.
Cuidamos do trabalho, dos horários, das reuniões, do estudo, mas esquecemos do corpo, este mesmo corpo que na atualidade também foi banalizado, ganhou tom vulgar, e é trabalhado para a beleza estereotipada que sofre em horas de malhação constante para chegar a resultados padronizados de uma beleza doente. Repensado, entende-se que cuidar do corpo vai muito alem de criar nele formas esbeltas ou bem definidas para serem exibidas. Precisamos neste momento entender seu movimento, sua relação com a gravidade, sua amplitude de formas e funções e sua infinidade de movimentos que se completam, se interligam, e nos fazem viver melhor.
E o que dizer das sensações e das percepções subjetivas? Do tato? O tato que não esta somente nas mãos, mas sim, o tato que reveste todo o corpo, pois o fato de dependermos tanto do olhar inibe nossos outros sentidos. Pode-se a partir deste momento exercitar e dirigir a atenção e as informações recebidas que nos permitiram perceber pressões, temperaturas, toques e pulsos.
Nesta completude de reflexões e analises sobre o corpo, outras sensações, foram sugeridas, tocar em si e no outro para entender movimentos, formas e funções, sentir-se tocado para apreender o desenho de sua própria estrutura, além, é claro de podermos trabalhar com a paciência, com a compreensão, esquecendo as limitações do tempo que não nos permitem mais estes momentos, foram além de uma simples didática sobre o corpo.
Um profissional que reveste o corpo com produtos que serão proteção ou extenção tem que conhece-lo melhor. Conhecer o próprio para reconhecer e respeitar o do outro.
Lendo estas linhas, pode-se parecer tudo muito simples, obvio, mas então experiente tocar seu corpo e analisar sua construção óssea, o toque sobre sua pele, tente também compreender seu conjunto de sensações e as relações que o corpo mede com a vida. Tente acima de tudo conhecer o corpo com que você trabalha, ou para que trabalha. Tudo isso sem relação mística, mas sim pratica e cotidiana, tente entender o corpo e seus movimentos. Tente!
* Karen Muller, Professora Doutora aposentada do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo onde ministrou durante 10 anos a disciplina Corpo e Movimento. Chefe do Departamento de Artes Cênicas de janeiro de 2004 a agosto de 2007. Bacharel em Teatro ECA/USP 1973. Mestre e Doutora em Teatro pela ECA/USP. Teve Formação em Dança no sistema Rudolf Laban com Maria Duschenes, Formação em Eutonia, sistema de educação corporal criado por Gerda Alexander. Formou-se na primeira turma da Escola Latino Americana de Eutonia fundada em Buenos Aires nos anos oitenta. Atualmente mantém colaboração com o Curso de Formação em Eutonia no Brasil, sendo responsável pela disciplina Estudo de Movimento. Mantém estúdio próprio onde organiza aulas e realiza atendimentos individuais.
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